sábado, 4 de novembro de 2017

Debates sobre Quadrinhos e artes



Olá!
Continuo ocupada até o pescoço com as disciplinas do mestrado, tanto que mal tenho conseguido encostar num papel para desenhar. T_T Mas resolvi me enforcar um pouco mais vindo aqui para escrever esse post, porque ele é relevante até para a minha própria dissertação, e formação (acredito que desenvolvo o meu pensamento na medida em que escrevo sobre ele).

Está tendo, aqui em Porto Alegre, a 63º Feira do Livro, e hoje teve uma tenda oferecendo diversos debates sobre os quadrinhos, entre eles, “Negros nas HQs” e “A Mulher e as HQs”. Na verdade, estou estudando os quadrinhos para a minha dissertação, que, embora não seja propriamente o objeto de estudo, fará parte da composição dele, por isso fui lá. Assisti somente a esses dois debates, pois a questão da representatividade me interessa, e felizmente fui feliz indo até lá, pois surgiram questões bastante pertinentes. 

Uma das questões foi em relação ao senso comum que se tem de qualidade. Um dos palestrantes questionou porque não se vê tantos quadrinistas negros no mercado (assim como não há muitos negros na literatura, ou em qualquer outra forma de arte, diga-se de passagem) e disse que geralmente há um discurso deslegitimado, e deslegitimador de que é por falta de pessoas negras produzindo, o que, obviamente, é uma grande falácia. Além disso, costuma-se dizer que a qualidade é outro fator determinante para que as minorias entrem no mercado, entretanto, afinal, o que é qualidade se não um juízo de valor subjetivo? Achei ótimo que essa questão tenha entrado em discussão, porque ontem mesmo estava lendo um texto para uma disciplina do mestrado que falava sobre a construção dos Cânones literários, como e quem institui o que é literatura e o que não é. Essa é uma questão bastante complicada de se abordar dentro da acadêmia, visto que já se sabe que, de fato, é a própria academia quem, na verdade, instituiu (e ainda o institui, pois tive professores na graduação dizendo que Paulo Coelho não é bom por isso ou aquilo) o que é boa literatura e o que não é. Também tive professores que, com um pouco mais de consciência, tentaram modalizar isso, mas dentro do seu discurso em aula, se percebia os preconceitos, com falas do tipo "nada contra os bestsellers, MAS eu prefiro histórias que possuem uma construção frasal mais complexa". Tipo, né? Ignorando que a construção frasal dos bestsellers são consequência dos tempos em que vivemos, e reforçando o preconceito linguístico, que, diga-se de passagem, também é abordado nas disciplinas. Claro que a pessoa está em seu direito  de gostar mais disso do que daquilo, mas no momento em que essa pessoa está na posição de professor, na frente de alunos, formando cidadãos, esse tipo de colocação pesa, e não faz sentido (na verdade só está reforçando o preconceito). Contradições da academia. 

Não há absolutamente nada na obra, em si, que diga o que é bom e o que não é. Claro que há alguns fatores de composição e estilo que por um lado tem sua relevância dentro do âmbito das artes, mas que, no entanto, não deixam de ser regras ditas pela academia, também. 

Enfim, é complicado falar sobre a academia em tempos obscuros como o que vivemos hoje, com tanta gente querendo deslegitimar a academia (e não é essa minha intensão ao trazer essas questões para cá), e acabar com disciplinas escolares que são fundamental para o desenvolvimento do senso crítico, por que, de fato, ela ocupa um espaço de privilégio na sociedade,  e tem suas muitas falhas, porque é importante ter consciência de que a academia também é um espaço político, onde  muitas revoluções começaram, e onde, de fato, a ciência se situa. No meu ponto de vista, e como um dos palestrantes afirmou também,  o importante é levar essas diversas obras para o público e analisá-las do ponto de vista dos questionamentos que elas podem suscitar... Eu tenho uma colega que levanta bandeira contra esse tipo de coisa, por que ela acredita na arte pela arte, literatura pela literatura, apenas. Ela não gosta do discurso de que a arte deva servir para alguma coisa, e concordo até certo ponto com ela, pelo menos, por enquanto (até que alguém venha com algum argumento mais forte), mas acredito que justamente pelos tempos nebulosos em que vivemos (tenho outra colega que diz que estamos numa Neo-idade-média, e concordo com ela) a questão do senso crítico é importante,  e utilizar os recursos que temos ao alcance para desenvolver esse senso é fundamental, porque, afinal de contas, a arte tem um autor, mas é o leitor/consumidor/público quem decide o que fazer com ela, no sentido de que é da responsabilidade dele a interpretação que faz do mundo que o cerca. E acredito que a arte seja uma forma de discurso, também. Até porque há artistas que fazem questão de "transmitir" mensagens por meio de suas obras e produções. 

Outra questão interessante que surgiu no debate foi a questão das editoras, o quanto elas contribuem com o estigma que as HQ ainda se encalcaram como literatura. Por que as escolas ainda veem os quadrinhos como literatura, quando os quadrinhos, na verdade, são pura e simplesmente quadrinhos. Assim como o cinema é cinema, teatro é teatro, literatura é literatura, e quadrinhos deveria ser visto como quadrinhos. Sei que houve uma discussão, há pouco tempo, de pessoas querendo que os quadrinhos fossem vistos como literatura, numa tentativa de elevar o status que os quadrinhos ocupavam dentro das hierarquias das artes (que, infelizmente, a gente sabe que existe). Aliás, até hoje os quadrinhos ainda são vistos como subproduto. E eu mesma me questionava, irritada por os quadrinhos não serem considerados como literatura, mas hoje já penso diferente. Quadrinhos é quadrinhos, ponto final.  Mas voltando a questão das editoras, foi mencionado que elas ainda impõem aos quadrinistas como os quadrinhos devem ser, sempre levando para o lado didático da coisa. E isso sempre desvirtua a obra e o próprio artista, porque no momento em que é imposto a forma e conteúdo, ele já deixa de ser arte, além de tirar do artista a autoridade pela sua própria autoria (o que é outra questão bem complicada, por que de um lado o artista tem contas para pagar, e por isso responde a essas imposições, por outro, até onde fica a autoria dele).  Então, como um movimento de resistência, uma das palestrantes afirmou que por opção mesmo ela desistiu de publicar em editoras, pois, como justificado, elas matam a potencialidade dos artistas. :/ 

O último ponto que anotei foi em relação a formação dos quadrinistas. Há cursos de formação em cinema, teatro, artes plásticas, literatura, dança e canto (na europa e eua). Mas não há nada em quadrinhos. Claro que, os quadrinhos, como os conhecemos hoje, é uma criação recente, vinda depois da segunda guerra, e sabemos que conceber espaços em (relativamente) tão pouco tempo, é complicado. Mas creio que já está na hora disso acontecer. Foi mencionado na discussão que os quadrinhos deveria ser abordado nos estudos das artes, mas, assim como a literatura toma para si os quadrinhos, e acho isso um equivoco, discordo delas nesse ponto, pois, como eu disse, quadrinhos é quadrinhos. É um gênero único, com suas particularidades. Não é só porque se utiliza imagens que as HQs devam ser abordadas no campo das artes, pois o cinema também utiliza imagens, jogos digitais utilizam imagens, e nem por isso estão lá. Também não é porque os quadrinhos utiliza a escrita que deva estar na literatura, porque o cinema e o teatro e a música utilizam escrita, e nem por isso estão nos cursos de letras e literatura. Quadrinhos é linguagem? É, sim, senhor! Mas teatro, cinema, música e artes plásticas também o são. Então, gostaria de deixar marcado aqui, que, a partir de hoje, levanto a bandeira em prol à liberdade dos quadrinhos, contra qualquer estigma que possam querer incutir a eles. o/

Em relação ao evento, tenho uma crítica a fazer: infelizmente, colocaram a tenda, em que os debates sobre quadrinhos ocorreriam, ao lado da seção de bancas de livros infantis, né, reforçando a ideia de que quadrinhos é coisa de criança. Sem falar que colocaram um branco para mediar a seção que tratava da colocação dos negros nos quadrinhos. Acho que isso ainda demonstra o quanto ainda há o que se fazer em relação a essas questões.

Bom, não vou entrar na questão das representações das mulheres e dos negros nos quadrinhos, porque, apesar de concordar com o que foi dito (que é preciso falar disso! - infelizmente), o meu tempo está curto, e sei que todos já ouviram algo a respeito. Vou deixar para elaborar mais essa questão quando eu terminar o meu trabalho no mestrado. ;) Mas sintam-se livres para fazerem suas colocações, que responderei a todos, sim. Cedo ou tarde, juro que responderei! T_T


Obrigada por acessar o blog! ♥ 
Me encontre também aqui: 

Nenhum comentário

Postar um comentário

Agradeço aos que reservarem um tempinho para comentar! ♥
Ah!, se tiver alguma sugestão de post ou quiser mandar alguma dúvida, ou qualquer mensagem, vou amar receber *-*

© 2016 BIAREYS.COM.BR ALL RIGHTS RESERVED. Tecnologia do Blogger.
© Bia Reys
Maira Gall