segunda-feira, 30 de março de 2015

livro: louco aos poucos



SINOPSE : Cameron Smith tem 16 anos e foi diagnosticado com a chamada "doença da vaca louca". Ele vai morrer. Um encontro com Dulcie, uma garota-anja-punk, o convence a partir em busca da cura. De quebra, ele terá apenas de salvar o mundo. Como ajudantes, terá Gonzo, um garoto anão neurótico, e Balder, um deus viking aprisionado no corpo de um gnomo de jardim. Junte-se a eles numa viagem repleta de questões profundas - e rasas também - que mostram que a vida não passa de uma jornada psicodélica que vale a pena.
Pelo título, já dá para imaginar a viagem que deve ser o livro. E, então, você lê a sinopse, e tem certeza de que é algo completamente fora da casinha. Hehe. Confesso que comprei o livro pela parte cômica que ele prometia, mas não sei é o meu humor que anda meio exigente mesmo, e não me permitiu a tantas gargalhadas como li alguns comentarem... mas o fato é que não achei ele tudo isso, nesse quesito. Houve cenas em que ri, sim, mas não de dar gargalhadas. :/ Mas o livro tem vários elementos interessantes que me fazia sempre prosseguir — que comentarei mais adiante.

Bom, primeiro, vou falar sobre um aspecto que achei inusitado no livro. Para cada capítulo, há uma pequena descrição (ou introdução) do que o leitor pode esperar dele. Eu, pelo menos, nunca tinha visto isso antes. O capítulo um, por exemplo, tem o seguinte: "em que eu me apresento" — o que já me deixou meio "bolada" pensando que seria algo do tipo "olá, meu nome é Fulaninnho, sou assim, assim e assado". Acho isso um pé no saco. Há muitas maneiras mais interessantes de se apresentar o personagem. Então, quando comecei a ler ele, minhas expectativas já foram murchando. Felizmente, a autora não cometeu esse pecado. Na verdade, essas pequenas descrições/ introduções são bem sucintas, e não entregam o ouro que cada capítulo pode conter.

Prosseguindo, então, a história começa com Cameron contando como ele achava que iria morrer (num parque da Disney, quando era criança) — o que é interessante, tendo em vista que o resto do livro nos conta exatamente como ele pode, de fato, morrer. Depois, ficamos sabendo que o pai dele é físico e sua mãe uma professora meio relapsa de História (informações importantes para a história) e sua irmã uma garota popular, boa em tudo o que faz. Na verdade, Cameron é o típico loser, sem habilidade alguma, sem atrativo algum, daqueles que é sempre excluído pela turma da escola. Até aí, um monte de clichês dos quais estamos habituados a ler. Mas, então, lá pelas tantas, Cameron começa a desenvolver alguns sintomas estranhos, como espasmos esporádicos. A coisa vai piorando, a família acha que ele está usando drogas, até que ele finalmente é diagnosticado com a tal doença da vaca louca (tecnicamente chamada de Creutzfeldt-Jakob) — que não tem cura. Assim, ele é obrigado a se internar num hospital para receber um tratamento que irá apenas prolongar um pouco mais seu "prazo de validade". Com a notícia sobre sua condição, de repente, todo mundo a sua volta muda de atitude com relação a ele. Pena, compaixão, solidariedade, sorrisos falsos de gente que nunca se importou com ele... Aí, no hospital, ele conhece Gonzo, um jovem anão com sérios problemas psicológicos, no meu ponto de vista. Afinal, o guri não consegue viver longe da mãe, é cheio de neuroses (que mais tarde, até parece que a autora esqueceu disso), asmático e desconfiado. E ao que me pareceu, a mãe é a fonte dos seus problemas. Quero dizer, já deve ser bem complicado ser um anão nesse mundo, e ainda ter que conviver com uma mãe que liga de cinco em cinco minutos para ver se o filho não morreu com algum infecção, é pra lá de preocupante... Contudo, para aliviar tudo isso, acho eu, Gonzo é inteligente, engraçado, meio nerd e perspicaz. Sem ele, realmente, a viagem não teria sido a mesma...

Depois tem a Dulcie, um anja meio maluca, que os guia em sua jornada dando dicas e pistas enigmáticas. Ela aparece quando quer, e ainda arruma confusão. E não só isso, ela diz que há alguém que pode salvar o Cameron, e de leva, o menino salvaria o mundo de uma grande catástrofe. Mas, para isso, Cameron deve levar Gonzo em sua viagem, e não contar nada para seus pais.

Mais tarde, aparece Balder, um Deus Viking encarnado num gnomo de jardim que ganha vida (e trás um toque bacana de mitologia nórdica). Pois é. Uma viagem total. Cameron vê gigantes de fogo, passa por um grupo de auto-ajuda, viaja no tempo, explode um cafeteria, encontra cientistas malucos, uma árvore dos desejos, é procurado pela polícia como terrorista e mais o diabo à quatro. Parece até que o guri fumou meias com chulé e cheirou peido! Apesar dessa meleca toda, achei a história bem contada, bem estruturada, com uma boa narrativa. Teve até uma cena em que a autora tentou trabalhar com a sinestesia visual, imitando cenas de filme — quero dizer, dá pra ver que a mulher trabalhou bastante nessa história, além das quase 600 páginas! É bem verdade que teve vezes que a linguagem coloquial me irritou um pouco, mas entendo que o livro é para o público infanto-juvenil.

Também gosto do toque musical que a autora deu. Não é como em As Vantagens de ser Invisível, que apenas há citações de música, aqui ela dá uma importância incrível à música, como se ela fosse a chave para todos os mistérios do universo. E ela ainda criou um músico chamado o "Grande Tremolo" (que na verdade, tremolo é a repetição rápida de uma nota ou uma alternância rápida entre duas ou mais notas musicais, segundo o Wikipedia), do qual Cameron é muito fã, que canta em português com flautas e ukelele. :)

Enfim, ademais, o livro está cheio de referências, que vai desde Dom Quixote (que ainda ei de ler!), passa por jazz, até física quântica. Afinal, nada mais louco do que tentar explicar a física quântica, né?! Aliás, acho que a autora foi bem criativa nesse ponto, pois ela usou vários elementos da física para desenvolver a história maluca. Por exemplo, Interpretação de Copenhagen, que se transforma num grupo musical que Camaron também é fã, e mais tarde sua música se torna chave para o problema dele; tem o Gato de Schrodinger que aparece como um gato de estimação mesmo; até o Calabi Yau como um souvenir. Eu precisei pesquisar na internet o que são cada um deles, porque realmente desconhecia. E achei tão complicado de entender, que me deu um nó. Exatas não é para mim. De qualquer forma, são coisas que enriqueceram a trama, a tal ponto que me faz pensar que, no final das contas, o livro é sobre o poder da física sobre nossas vidas, sobre as possibilidades das coisas que não vemos, e não conhecemos, sobre o que fazemos com a nossa vida nessa curta passagem pelo mundo...

"Porque devemos morrer, quando tudo em nós nasceu para viver?" — página 404.

Ah, mais uma coisa, (e aqui vai um grande spoiler, apesar de que está mais para uma suposição minha...) lembram que mencionei no início sobre o fato de o pai dele ser físico importante? Acho que, no fundo, o menino tinha algum problema a resolver com ele, e por isso acabou viajando nessa questão da física quântica. Por que seu pai era um workaholic, do tipo que as vezes negligenciava os filhos. E Balder, como o elemento histórico que entra na trama, representa a mãe dele.

Para finalizar, outra coisa que me chamou a atenção para o livro foi a arte da capa, lomba, orelha, folha de rosto e a ultima página. Esse é o primeiro livro que leio da Editora iD e me deixou bastante contente nessa parte gráfica. Eles produziram pequenos ícones para representar os personagens, e que foram colocados nessas áreas. Só acho que poderiam ter sido um pouco mais ousados, e utilizado eles nas páginas também, ou pelo menos nas aberturas dos capítulos, já que são elementos bem importantes e que fazem relação com a história. Uma pena que não fizeram isso.

Enfim, espero não ter dado spoilers demais. Na verdade, eu li várias críticas negativas sobre o livro, mas nenhuma delas comentava sobre essas questões da física quântica e a importância da música na trama, talvez por não terem captado. Então, quis mostrar um ponto de vista mais positivo sobre o livro, porque realmente gostei dele, do início ao fim (embora o final tenha sido bem previsível, eu me surpreendi com o quanto gostei dele. E apesar de este não ser o tipo de livro que me faça querer ler mais de uma vez...).

2 comentários

  1. Esse livro me pareceu confuso e complexo *-*
    Sua resenha ficou ótima mas não é um livro que eu leria rs

    www.chaeamor.com

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    Respostas
    1. Oi, Camila! que bom que gostou da resenha. O livro é bem tranquilo de se ler. Ele tem bastante ação, muita coisa acontece, mas não é confuso. Dá pra acompanhar sem problemas. ;) sem falar que dificilmente um bestseller vai ser complexo, viu! hehe.
      bjss :**********

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