domingo, 25 de março de 2012

Livro: Crônicas de uma morte anunciada



Sinopse: "No dia em que o matariam Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã". Fatalidade, destino, o absurdo da existência humana. O que explica a tragédia que se abateu sobre o protagonista de Crônica de uma Morte Anunciada? Neste romance curto de construção perfeita, García Márquez monta um quebra-cabeça cujas peças vão se encaixando pouco a pouco, através da superposição das versões de testemunhas que estiveram próximas a Santiago Nasar no último dia de sua vida. Em que e em quem acreditar? Como descartar a parcialidade das versões e "o espelho quebrado da memória" dos envolvidos.

Li ele todo hoje, tarde de Domingo. É uma leitura tão rápida, fluída, que não tive como parar. O início dele, no entanto, foi um pouco mais custoso, confesso, até que me habituasse à escrita do autor. Gabriel García Márquez é colombiano, ainda vivo, e mora em Cuba, de acordo com o Wikipedia. Este senhor de 85 anos, além de escritor, foi político, ativista, editor e jornalista. E é esse seu lado jornalista que vemos claramente nesta obra, carregada com seu estilo jornalistico na escrita. É rápido, sucinto, pouco detalhado. Afinal, crônicas são estórias elaboradas para veículos de massa (revistas, jornais..) e precisam ter essas características.

Mas vamos às impressões da trama. É uma estória triste, que conta a morte da personagem principal, Santiago Nasar. Mas é narrada por outra personagem onipresente na trama que não se revela (não diz seu nome) em momento algum. Essa personagem é um dos melhores amigos do protagonista, que o conhecia desde pequeno. Eles estudaram juntos e compartilhavam todos os segredos. Mas, inconformando com o que aconteceu, o Narrador tenta desvendar o mistério da morte do rapaz, que é anunciada logo na primeira frase da crônica para o leitor.

Este Narrador, então, vai passando de testemunha em testemunha, tentando descobrir o que aconteceu à vítima. E, assim, o autor consegue criar um quebra cabeças muito bem intrínseco, alternando o passado e o presente.

 Vejam que trágico. Santiago era um jovem rapaz bem apessoado que herdara as terras do pai falecido e, assim, conseguiu alguma fortuna para si.

Bem, se bem entendi, algumas pessoas sentiam certa inveja de Santiago por ser tão jovem e já ter alguma fortuna, que, mesmo não sendo grande, já era alguma coisa dentro daquela cidade pequena. O rapaz em questão, então, foi morto um dia depois do casamento mais comentado da cidade. Ângela Vicário, moça de família pobre, e Bayardo San Román, um estranho que chegou à cidade sem mais nem menos, e podre de rico. Ninguém nunca soube o que trouxera o cara àquela pequena e esquecida cidade, mas isso pouco importava aos que se encantaram com o homem. E então, sem muito conhecê-la, Bayardo pede a mão de Ângela em casamento.

No dia do casamento, como se premeditando que algo aconteceria, Ângela se recusa a vestir-se de noiva até que visse seu futuro esposo na igreja. Pois, dizia ela muito sabiamente, seria vergonhoso demais ter os familiares a olhando com pena, caso o noivo a abandonasse no altar. Afinal, ela nunca entendeu por quê aquele homem a escolhera como esposa. Mas Bayardo aparece, e eles se casam.

Contudo, na mesma noite em que se casaram, Bayardo leva Ângela de volta para a casa dos pais ao descobrir que a moça já era desonrada (leia-se: não virgem). E então, ela é devolvida aos pais, cheia de hematomas. Quando seus irmãos gêmeos perguntaram quem foi?, sem pestanejar, ela diz: Foi Santiago Nasar.

Contudo, todos sabiam que Santiago era de boa índole e sequer fora visto com Ângela, muito menos sozinhos. Mas a moça continuava a afirmar que ele era o culpado por sua desonra. Furiosos, os irmãos gêmeos de Ângela Vicário vão atrás do Santiago com facas de matar porco, para recuperar a honra da irmã. Afinal, honra se recupera com sangue. Mas antes, vejam aqui o que o autor fez: insinuou para o leitor que Santiago não passava de um animal imundo, talvez para o próprio autor. E isso é algo que ficou muito marcado, por que é repetido mais de uma vez.

Os gêmeos conseguem o que queriam, e a tragédia mexeu com a comunidade durante anos; por que os gêmeos, por acharem que estavam em seu direito, espalharam a notícia de que queriam matá-lo. Só que todos souberam da intenção dos irmãos, mas pouco foi feito para detê-los. Alguns tentaram lhe avisar, outros não deram bola por achar que os criminosos estavam apenas bêbados. Acho que houve um tanto de dissimulação por parte de alguns.

E assim se passa toda a trama, com o Narrador percorrendo memórias da pessoas que o conhecia e tentando desvendar quem, afinal de contas, havia realmente tirado a honra da moça. Pois ele não acreditava na culpa de Santiago. Para ele, a moça escondia uma paixão secreta por outro homem, que não queria revelar. Afinal, corria o risco de ser morto. Mas o autor deixa o mistério até o fim, sem sequer revelar por que Ângela escolhera Santiago. E ficamos assim, meio no escuro, sem saber o que se passa com o pobre Santiago antes de sua morte, que morre de uma maneira muito trágica. No final, o crime é narrado com todos detalhes e angústias dos que viram.

Eu anotei duas frases que me chamaram muita a atenção.

"Agente deve estar sempre do lado do morto." — disse uma das personagens, quando lhe perguntaram por que ela se importava com a morte do rapaz, já que não era próxima a ele. E então, eis que ela diz isso. Achei bonito.

"Ela foi sua paixão desvairada, sua professora de lágrimas (...)" — acho que foi o Narrador quem disse isso, contando da única paixão que soube de Santiago Nasar, quando eram crianças.

“A cavidade abdominal estava ocupada por grandes coágulos de sangue, e entre o lodaçal de conteúdos gástricos e matérias fecais apareceu uma medalha de ouro da Virgem do Carmo que Santiago Nasar engolira aos quatro anos de idade.” (p. 99) — vejam o detalhamento da coisa. Achei bárbaro a descrição do encontro da medalha que o cara tinha engolido quando criança. E não era uma medalha qualquer! Era uma medalha com a imagem da Virgem de Carmo (símbolo que representa o ato de estar a serviço de Deus). Seria uma insinuação do autor de que Santiago era, afinal de contas, inocente?

Fica aí, a dúvida.

Achei o livro excelente. Ele mostra muito bem que, para ser uma boa estória, não é necessário dar todos os detalhes de tudo, sem parecer verossímil, sem convencer o leitor. E não há necessidade de que todos os mistérios sejam resolvidos; não há necessidade de dar um fim, propriamente dito. Ele deixa a encargo do leitor a criar seu próprio final, dando apenas algumas pistas, insinuações sutis. :)

Super recomendo.

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