Filme: A árvore da vida





Título original: The Tree of Life
EUA , 2011 - 139 minutos
Gênero: Drama
Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Hunter McCracken, Brad Pitt, Jessica Chastain, Sean Penn, Tye Sheridan, Laramie Eppler

"Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Quando a manhã começou a cantar e todas as músicas de Deus estavam cheias de alegria?" Jó 38: 4,7

Fiquei um tempo me perguntando como eu poderia começar a falar sobre minhas impressões a respeito do filme. Longo e cansativo foras as palavras que me veio a mente. Mas não me entenda mal, adorei o filme, apesar do conteúdo ser altamente religioso. Digo apesar, por que, acho que a maioria aqui deve saber que eu não sou uma pessoa religiosa. Acredito na possibilidade da existência de algum Deus , e é só. E o filme, logo de cara, já apresenta ao expectador a frase acima, de Jó.

Confesso que fiquei meio aérea no final da película, me perguntando se eu realmente havia entendido, e então, resolvi buscar mais informações a respeito, e fiquei contente por constar que entendi boa parte, sim. No entanto, me faltou conhecimentos teológicos, para compreender ao quê ele se referenciava. Mas vamos ao que interessa. O filme mostra uma família dos anos 50, que morava numa bela casa, em algum lugar do Texas. Essa família se constituía de uma mãe (Jessica Chastain) que é retratada como santa, gloriosa, amorosa, que tenta mostrar aos filhos que devem amar a tudo e a todos para terem uma boa vida e serem boas pessoas; um pai severo (Brad Pitt), com conceitos rigorosos sobre educação (típico daquela época), que machuca os filhos, mas que os ama em sua maneira reservada de ser; e três filhos (Hunter McCracken, Laramie Eppler, Tye Sheridan), todos meninos.

O filme começa quando os meninos já estavam razoavelmente crescidos, o mais velho deveria ter em torno dos 12 ou 13 anos, para, então, mostrar a morte do segundo filho. A princípio, achei que o filme fosse falar sobre como as pessoas lidam com a morte; enfatizando como os homens lidam diferentemente das mulheres. O pai sente remorso, a mãe sente dor, e os outros sentem culpa. Mas não. O filme vai muito além. Ele volta ao passado, e mostra a mulher dando a luz, focaliza no desenvolvimento das crianças, junto com o envolvimento dos pais nesse processo. E aí vemos cenas muito bonitas, tocantes, que ficaram na memória durante um bom tempo após o término do filme, junto com a trilha sonora meio etérea — a música é um daqueles canto coral de igreja. Não sei quantas músicas foram tocadas durante o filme, mas pareceu ser sempre a mesma. Seja como for, achei adequado, sim, por que o filme se propõe justamente mostrar essa coisa sagrada e sutil, que há no desenvolvimento do ser humano. Aliás, acho que é bem isso o que o poster de cima quer mostrar: que a essência de todas as coisas vivas é nascer, desenvolver, envelhecer e morrer.

Mas voltando à questão da morte, alguém fala para a mãe uma frase que, particularmente, achei hipócrita, apesar de ser o que muitos realmente acreditam. Ela estava chorando a morte do filho, quando alguém lhe diz: "Deus dá e Deus tira." Juro que estou me coçando para não mostrar muito minha opinião pessoal a respeito disso, mas como o filme é pretensioso (acho que qualquer um que queira explicar a existência do mundo, como o filme faz, seja pretensioso. Inclusive mostra várias fotografias sobre o desenvolvimento das coisas, desde os primórdios, no big-bang, na época em que o planeta era habitado somente por dinossauros — o que é estranho para um filme que se mostra cristão, já que a bíblia não admite a existência dos dinossauros — , até os dias atuais) e nos instiga a pensar sobre o assunto, acredito estar no meu direito de expor minha opinião também.

Bom, eu não sei se Deus realmente existe ou não e, sinceramente, saber disso não vai mudar minha vida! Vou continuar sendo a mesma pessoa, fazendo o que sempre fiz. Não vou deixar de ajudar as pessoas só por que Deus não existe, como também não vou me meter a querer salvar o mundo apenas com medo do julgamento final para poder garantir meu lugar ao lado Dele. Mas, sinceramente, acredito que essa história de que Deus é aquele que dá e tira é desculpa esfarrapada de quem não quer admitir que as coisas podem simplesmente acontecer. Por que Deus, criatura misericordiosa, extremamente bondosa, que ama a todos, deixaria um menino inocente morrer afogado numa piscina? Ok, é ficção, mas espero que todos aqui saibam que isso já aconteceu, e não só uma vez... Enfatizo que não quero impor nada a ninguém, apenas estou dando minha opinião. Mas enfim, não vou mais me desviar do propósito do filme.

O filme, essencialmente, fala sobre a fragilidade da nossa fé, diante das nossas perdas, diante das circunstâncias que nos aparecem durante a vida. Foram várias as vezes em que as personagens interrogavam coisas do tipo "Você está aí? Pode me ver? Onde está?" Há uma cena, mais para o final, em que mostra um monte de pessoas caminhando na beira de um lago, ou o mar. Nessa cena tive a sensação de que ele estava querendo nos mostrar que, fim das costas, todos nós caminhamos para um mesmo lugar. Mas que lugar seria esse? A morte?, eis a questão.

Outra coisa pelo qual preciso comentar, é sobre a personagem Jack. Aliás, percebi que ele foi o único a ser chamado pelo nome, durante a trama. O restante das personagens pareceram incógnitas, sem nome (nos créditos, no entanto, todos eles tinham um nome, apesar de não mencionados no filme). Jack era o filho mais velho que, aos poucos, vai amadurecendo, percebendo e tomando consciência do mundo a sua volta. Há um cena em que ele reza pedindo ajuda para não maltratar os animais, não ser insolente como o pai, e mais alguma coisa que não me lembro agora. Contudo, mais tarde, ele se vê fazendo justamente tudo o que não queria. E ele diz isso, que faz o que não quer por que percebe que nada o impedirá. Ele se questiona onde Deus está. Mas ele não perde sua fé; não totalmente, pelo menos. Ele teme a Deus, que, às vezes, aparece como sendo seu pai, esse Deus. O homem severo, que o castiga, mas o ama. E Brad Pitt desempenha muito bem o papel de um pai rígido, homem trabalhador, mas que não olha muito para o que sua família sente. Ele impõe suas crenças nas crianças, e as treina para serem vencedores na vida, sem se importar em saber o que ele realmente querem. E Jack, então, é quem não aceita as ordens do pai — o filme mostra um pouco sobre como a relação familiar afeta no nosso desenvolvimento, mas não chega a ser o ponto principal — E como não recebe o que espera dele, aos pouco, a raiva vai se acumulando dentro do menino, a chegar ao ponto de pedir a Deus que o leve, que o mate. Jack é a personagem mais sombria, mais perturbada. Afinal, é apenas uma criança, que não compreende ainda como as coisas funcionam. Tudo o que ele sabe é o que o pai dele lhe diz. E, então, o filme começa a dar pulos, mostrando o Jack mais velho, interpretado pelo maravilhoso Sean Penn. Jack se mostra um homem bem sucedido na vida, morando numa cidade grande, industrializada e moderna (e aí, acho que o diretor errou, afinal, nos anos 50/60 não havia belos prédios e apartamentos com móveis modernos como aqueles que mostram!). Mesmo depois de adulto, ele continua com as mesma dúvidas — já que nunca recebemos uma resposta concreta. Há uma parte em que é dito que Deus se comunica através das coisas, da natureza, do vento... Mas ele nunca conversa conosco, como realmente precisamos, e é aí que mora o a fraqueza da fé.

Descobri depois que o filme, então, faz reverência à Jó, que também perdeu a família, os amigos, os bens materiais, e questiona sua fé entre a existência ou não de Deus. No geral, eu digo que o filme traz algo sublime. Nos dá a sensação de que estamos sonhando, é transcendental, de pureza nobre. Afinal, fala sobre a vida. E tudo de uma maneira limpa, num ponto de vista diferente, mais belo, mais sutil, mais poético. É um filme cheio de olhares discretos, que mostram a tristeza, a alegria, a raiva, a inveja, a inocência, a culpa, o remorso... É um trabalho que mostra o que é o ser humano. Mas não é um filme que vá agradar a todos, com certeza. Há partes cansativas, como as que mostra cenas da natureza (vulcão em erupção, o fundo do mar, as erupções do sol, as estrelas, os planetas...) e ele fica um bom tempo nisso. No final ele fica mais um tempo mostrando imagens das personagens, como se fossem memórias do passado. Mas para quem tem paciência e principalmente sensibilidade, é um filme muito recomendado. É uma obra digna de ser chamada de sétima arte, e todos os atores fizeram jus ao seus nomes; foram fenomenais, atuaram com bastante naturalidade, inclusive as crianças.

Fiquei sabendo que o filme conta com a participação de um brasileiro na produção da obra. Daniel Rezente, o mesmo que montou Cidade de Deus e Tropa de Elite, participou do filme, e foi também quem deu vida a ao poster meio mosaico (a imagem acima).

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